Migração de Carreira

07 de ago. de 2026

Como deixei a Odontologia para me tornar Desenvolvedora

Sempre gostei de tecnologia

Sempre gostei de tecnologia, computadores, videogames e de entender como as coisas funcionavam. Na escola, eu era aquela aluna curiosa, que gostava das aulas de Ciências e saber como tudo funcionava.

Sempre gostei muito de Biologia, era excelente em Quimica e queria trabalhar com algo que realmente pudesse ajudar as pessoas. Além disso, achava fascinante tudo o que um dentista fazia no consultório. Resolvi arriscar, passei, cursei, me formei. (E não foi fácil. Inclusive, este ano completa 10 anos da minha formatura.)

Por muito tempo, amei a faculdade que fiz. E, sinceramente, ela foi uma das melhores fases da minha vida. Seria difícil não gostar de um curso que passei um ano tentando entrar e cinco tentando sair… rs.

Odontologia é uma graduação cara, e tive muita sorte de conseguir cursá-la gastando relativamente pouco. Por isso mesmo, durante muito tempo, eu fazia questão de acreditar que aquele esforço precisava dar certo, e que iria dar, afinal, não tinha erro, né?

Quando a profissão deixou de fazer sentido

O problema nunca foi a Odontologia em si, foi perceber que a vida profissional que eu estava construindo já não fazia sentido para mim, eu tinha que me tornar quase que uma “vendedora”, cursos caros, o conhecimento dificilmente compartilhado sem alguns reais desembolsados, trabalhos mal remunerados, uma rotina fisicamente cansativa, dias emocionalmente desgastantes.

Na época eu morava em Manaus. Pegava ônibus lotado para ir e voltar do trabalho, enfrentando um calor que, em dias comuns, facilmente passava dos 45°C de sensação térmica.

Foi quando decidi mudar de cidade.Se não fosse para crescer profissionalmente, que fosse para crescer como pessoa. Mudei para São Paulo e comecei uma vida completamente nova. Problemas pessoais? Ok. Todo mundo tem. Ganhar pouco? Trabalha mais que você consegue.Mas havia uma pergunta que começou a aparecer com cada vez mais frequência:

Como lidar com o desgaste de cuidar de tantas pessoas todos os dias?

Alguns dias eram leves, outros, extremamente difíceis e mesmo assim, continuei. Meu plano era simples: trabalhar bastante, juntar dinheiro, fazer uma pós-graduação e melhorar de vida. Bem…Não foi exatamente assim. E é justamente por isso que você está lendo este texto.

O pensamento de programador

Durante um período, morei dividindo apartamento com outras pessoas, uma delas dizia, com certa frequência, que eu tinha “pensamento de programador”, eu dava risada, sempre tive umas estranhezas mesmo, mas eu era dentista, como eu iria simplesmente abandonar uma profissão tão reconhecida? Apesar das dificuldades, o impulso de continuar tentando ainda era grande, até que comecei a fazer um exercício que mudaria completamente minha forma de pensar, passei a me projetar no futuro. Naquela época, eu estava completando 30 anos. E comecei a me perguntar:

Eu quero estar vivendo essa mesma rotina aos 38 anos?

Aos 50?

A resposta veio quase imediatamente. Eu não queria mais fazer aquilo nem no dia seguinte, foi uma resposta difícil de aceitar, porque eu gostava da minha formação, mas percebi que estava insistindo mais no passado do que pensando no futuro, também pensei muito em como minha família receberia essa decisão, principalmente meu pai, no entanto, ele só descobriu recentemente, quando eu já estava trabalhando como desenvolvedora, não porque eu quisesse esconder alguma coisa dele. Mas porque eu só queria contar quando tivesse dado certo, talvez fosse uma forma de proteger nós dois de uma possível decepção (e sermão também).

Esse sempre foi um traço meu, se precisar calcular a rota, eu calculo, se precisar me reinventar, eu me reinvento. Nunca fui muito presa a títulos ou status, sempre tentei seguir aquilo que fazia sentido para mim, e foi assim que escolhi a Odontologia, inclusive, eu queria ajudar as pessoas, só comecei a perceber que talvez eu não precisasse fazer isso, necessariamente, na linha de frente de um consultório, existem muitas maneiras de impactar a vida de alguém.

O vídeo que mudou tudo

Então, decidi tentar, o que eu tinha a perder? Se não desse certo, pelo menos eu aprenderia alguma coisa nova, e eu sempre gostei de estudar. Pensava que, no pior dos cenários, teria um novo hobby, poderia fazer alguns projetos nas horas vagas ou até conseguir uma renda extra.

E então, foi conversando com um amigo desenvolvedor que recebi a primeira indicação de um curso de Data Science. Comecei esse curso e até fui longe. Mas, enquanto estudava, fazia o que qualquer pessoa curiosa faz: comecei a assistir vídeos, ler artigos e entender melhor aquele universo. Até que um dia apareceu um vídeo curto no YouTube. Era um rapaz recriando um joguinho do Mario usando apenas HTML, CSS e JavaScript. Pode parecer bobo hoje ou pra você, mas eu fiquei completamente fascinada. Naquele momento pensei:

É isso.

Pela primeira vez, eu enxerguei alguém construindo algo do zero e pensei: eu quero fazer isso também, lembro da sensação até hoje, parecia que eu tinha encontrado uma profissão que unia criatividade, lógica, aprendizado constante e a possibilidade de construir coisas novas todos os dias, e que era acessivel à todos. Era aquilo ali que eu queria fazer. Foi assim que entrei no mundo do Front-end.

Aprendendo a recomeçar

Houve um período em que voltei para a casa do meu pai. A ideia era conseguir estudar mais. Na prática, acho que nem consegui render tanto quanto imaginava. Mas hoje percebo que aquele tempo foi importante por outro motivo. Foi quando parei para pensar, de verdade, sobre a vida que queria construir, planejei meus próximos passos. Escrevi objetivos de curto, médio e longo prazo. E, curiosamente, menos de dois anos depois eu já tinha alcançado praticamente tudo o que havia colocado como meta de médio prazo. Talvez por isso eu acredite tanto em saber onde se quer chegar. E que nem sempre as coisas acontecem exatamente como planejamos. Mas ter uma direção faz muita diferença.

Listando como queria a minha vida em médio e longo prazo.

Listando como queria a minha vida em médio e longo prazo

Estudar enquanto a vida acontecia

Conciliar os estudos com a Odontologia não foi simples, naquela época eu atendia mais de vinte pacientes por dia, chegava em casa cansada, e mesmo assim, aproveitava feriados, finais de semana, folgas… qualquer tempo livre virava tempo de estudo.

Fiz cursos da PrograMaria, tanto de Front-end quanto de Back-end, mas grande parte do que aprendi em Front-end veio da Origamid, também fiz um curso de JavaScript pela Udemy. E o mais curioso é que praticamente nunca paguei pelos cursos. Tudo foi gratuito ou feito com contas que amigos me emprestaram. Naquela época, eu só queria aprender. Não importava muito como.

Descobrindo que eu também fazia parte daquele mundo

Depois de mais uma experiência difícil na Odontologia, tomei uma decisão. Não seria mais apenas uma curiosidade, eu realmente iria tentar mudar de carreira. Comecei a frequentar eventos da área, meetups, palestras, comunidades…Afinal, eu estava morando em São Paulo, por que não aproveitar essa oportunidade? Lembro de assistir a palestras sobre Next.js sem fazer a menor ideia do que era Next.js, mesmo sem entender muita coisa, eu gostava da sensação de estar ali, era como se eu estivesse, aos poucos, encontrando um lugar onde fazia sentido estar, além do conhecimento, comecei a fazer networking…conheci pessoas, conversei, escutei histórias, e percebi que todo mundo também tinha começado do zero um dia.

Marcando presença em um Meetup no Google:

Marcando presença em um Meetup no Google

A mentoria que mudou tudo

Existe uma coincidência nessa história de que gosto muito. Naquele mesmo meetup sobre Next.js, consegui sair mais cedo do consultório e fui direto para a Liberdade, que era justamente o bairro onde eu morava. No fim do evento, segui um dos palestrantes nas redes sociais. Ele me seguiu de volta, e assim continuei postando minha rotina de estudos, e algum tempo depois, ele comentou uma publicação minha…conversamos, contei toda a minha história. Então, ele se ofereceu para me mentorar, e eu aceitei, é lóooooogico! E no ano seguinte, começamos a mentoria.

Até hoje, olhando para trás, penso que aquele encontro aconteceu no momento certo, e me destravou portas.

Mais um dia de mentoria…

Mais um dia de mentoria

A oportunidade que eu esperei tanto

No ano seguinte, minha rotina era praticamente a mesma todos os dias, trabalho, estudo, projetos pessoais, mentoria. Naquela época eu atendia das 9h às 19h. Quando chegava em casa, ainda estudava, fazia cursos, desenvolvia projetos e tentava evoluir um pouco mais, subia tudo no Github. Cada projeto novo representava uma habilidade que eu tinha acabado de aprender, mas…no fim daquele ano, perdi meu emprego. Na época eu atendia em apenas um consultório e, de repente, me vi diante de uma decisão que eu ainda não me sentia preparada para tomar. Foi meu mentor, junto com meu namorado, que começou a insistir para que eu tentasse. “Começa a se candidatar”. Eu confesso achava cedo, achava que ainda faltava muita coisa. Mas resolvi ouvir, enquanto enviava currículos, continuava estudando. Se aparecia um processo seletivo com desafio técnico, eu fazia, depois, subia o projeto para o GitHub.

O GitHub na época

GitHub

Fui chamada para várias entrevistas, alguns processos foram congelados, em outros cheguei até as etapas finais, em alguns, simplesmente recebi um “não”, e tudo bem. Cada entrevista me ensinava alguma coisa, ia me tornando cada vez melhor a cada entrevista nova. Cada desafio técnico fazia eu aprender um pouco mais, e viravam cada vez mais commits. Mesmo assim, existia uma voz dentro de mim que dizia:

“Isso é bom demais para acontecer comigo.”

Eu imaginava que, em algum momento, encontraria outro trabalho na Odontologia e toda aquela tentativa de mudar de carreira acabaria ficando para trás. Mas, no fundo…Eu queria muito que desse certo, então fui tentando mesmo sem acreditar muito.

A primeira vaga

Então aconteceu, recebi a proposta para minha primeira vaga como Desenvolvedora Júnior. Eu li, reli, li de novo. Demorei para acreditar que aquilo era real. Depois de tantos meses estudando entre um atendimento e outro, passando finais de semana em frente ao computador, assistindo aulas, fazendo projetos, indo a eventos e ouvindo tantos “ainda não”, Finalmente tinha chegado o “sim”, eu me emocionei.

As primeiras pessoas para quem contei foram justamente aquelas que caminharam comigo durante toda essa trajetória: Meu namorado, meu irmão, e meu mentor. Sem eles, essa história provavelmente teria sido muito mais difícil, talvez nem tivesse acontecido.

Hoje

Hoje continuo na mesma empresa, todos os dias aprendo alguma coisa nova, todos os dias descubro que ainda tenho muito pela frente, e acho que essa é justamente uma das coisas que mais gosto na tecnologia, e sempre existe algo novo para aprender.

Hoje trabalho da minha casa, posso montar um ambiente onde me sinto confortável, tenho qualidade de vida, faço um trabalho que me desafia intelectualmente, e, principalmente, faço algo que me deixa feliz. Quando olho para trás, não sinto que abandonei uma carreira. Sinto que encontrei outra.

Acho que a maior lição dessa história é que mudar de ideia não significa jogar fora tudo o que você construiu, durante muito tempo eu achei que mudar de carreira era admitir que tinha errado, hoje penso exatamente o contrário, nada foi perdido. A Odontologia me ensinou disciplina, responsabilidade, resiliência. Me ensinou a lidar com pessoas, a estudar mesmo quando estava cansada e a continuar mesmo quando as coisas não saíam como eu imaginava, e tudo isso faz parte da profissional que sou hoje.

A única coisa que posso dizer é que, às vezes, a gente passa tempo demais tentando convencer a si mesmo a permanecer em um lugar que já não faz sentido, comigo foi assim, até que um dia eu parei de perguntar se eu conseguiria, e comecei a perguntar se eu queria continuar vivendo daquela forma pelos próximos dez ou vinte anos. E ter tentado, foi uma das melhores decisões que já tomei na minha vida.

Setup de trabalho

Setup de trabalho

Obrigada por acompanhar! ;)